Nessa virada calhei de não vestir branco nem pular as sete ondas. Mais uma vez me vi longe do mar e de mainha, mas não tive medo, todas as minhas escolhas me levaram até ali. O novo ano entrou apressado e de repente me vi gente grande, mas ainda me sinto pequena, só que agora gosto de me ver assim, miúda. Gosto de poder esquecer de mim entre a multidão de rostos estranhos e árvores velhas, espécies conhecidas ou não, ainda mais se o amor me acompanha. Antes já gostava, só que agora é mais sereno. Posso mesmo me tornar invisível por alguns segundos, ele ainda me vê.
Confesso que penso cada vez menos nas tradições, e talvez seja por isso que escreva, pra não esquecer das partes de mim que me acompanham e as que ficam pra trás a cada vez que me movimento. Sonhos ocupam cada vez mais espaço em minha mente, questionamentos sobre as novas escolhas, os novos hábitos, os caminhos imprevisíveis. Tudo indica que nesse ano se termina o último capítulo de minha história que, de certa forma, foi escrito por outros. Me vem uma sensação engraçada, como se só depois dele é que eu fosse pela primeira vez assinar meu próprio nome.
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Enquanto a nova década se anunciava, eu dançava de olhos fechados ao som de música de internet e sob influência de psicotrópicos - ou psicotemperados - tal qual o que sou, uma filha de meu próprio tempo. Em seguida percebo que no fim desta década terei 34 anos completos, e este me parecia um grande e consistente e assustador número, afinal imagine ser mais velha que Cristo! Aprenderei finalmente, tal qual Gil, a só ser? Eu que já sonhei em ser cineasta, arqueóloga, astronauta, bruxa, cientista e empreendedora, e também em viver no mato, e nada disso fui (ou talvez tenha sido um pouco de cada, mas não um bocado suficiente), quais projetos terei desenvolvido, quantos abandonado? Quais rostos, corpos, mentes e letras terei amado? Por onde me farei lar, de onde fugirei e nunca voltarei? Quantas decepções, corações partidos, insônias, gripes, quantos bolos solarei? Quantos orgasmos, novas canções favoritas, palavras descobertas? De quantas guerras e aquecimentos mundiais, regionais, municipais, e inter-galácticos terei tido medo? Algum dia nesta década pegarei em armas? Ou será que serei mãe com a própria casa-gato-cachorro-trabalho-família, ou quem sabe estarei sozinha, workaholic, em uma cidade que ainda não ouvi falar, ou quem sabe aqui mesmo, e nada terá mudado tanto assim? Quais partes de meu eu de 23 anos terão sobrevivido?
Daqui pra lá o caminho é longo, mas parece que não vai demorar. A vida só pode melhorar é dentro de minha cabeça.
Faço o exercício então de pensar sobre o que posso e gostaria de mudar hoje, afinal tudo o que tenho e sempre terei é o presente. Não existe coisa tal como um instante para além do agora.
Começo pensando no corpo, para cuidar da mente: andar mais de bicicleta e patins, fazer yoga, meditar, cozinhar mais, comer menos açúcar, ter um sono regulado como prioridade.
Em seguida o mais evidente é pensar em ter mais foco no trabalho/estudo. Seria bom inserir doses diárias de conhecimento e desenvolvimento de projetos. Usar menos rede social, e mais a rede de deitar, e nela ler. Adoraria ler mais literatura, inseri-la no rolê na praia, piscina, parque. Pegar a bike e sair pra ler, escutando música no caminho. Não desistir nunca da música. Tocar e experimentar sons.
Para tudo isto, ser uma mulher que forra a cama, se alonga, anota os gastos, mantém uma agenda atualizada, pois confio cada vez menos em minha memória.
Me fazer menos de trouxa, me enganar menos. Não me meter em coisas que não me alimentam realmente, não forçar a barra.
Sobretudo, não encarar a vida como se fosse uma competição, sob ângulo algum. Lembrar sempre da multidão, que sou miúda, e todos somos.
Reservar espaço e tempo ao ócio.
Aprender/estudar a ensinar.
Dar risada todos os dias.
Não ter medo de me exprimir e de experimentar. Nunca me desvencilhar da arte, ter sempre um caderno pra desenhar, escrever, colar e vomitar coisas que não se dizem em voz alta. Não permitir que a vida adulta arruíne minha relação com a arte, que transforma o sentido da vida, essa coisa que é puro acaso. Voltar então a bordar bolsinhas, boné, roupa, quadro... Fazer e dar presentes. Demonstrar meu amor, demonstrar gratidão. Demonstrar raiva também, e todos os meus sentimentos, pois frequentemente deixo passar as coisas de dentro subentendidas pela energia do calor, como se o pensamento fosse luz, ou fogo no cu.
Entender que se não estiver aqui amanhã, tudo bem, pois estive hoje, e por isso escrevo. Nessas palavras, o hoje é eterno, não importa quantos anos, guerras e transformações se anunciem.
Hoje estou mesmo tranquila, me permito sonhar.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
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