domingo, 3 de novembro de 2019

pra toda vez que eu estiver meio azul

lembrar de por onde já pisei com meus pés e com minha cabeça, quando só podia levar comigo os olhos 
lembrar destes pés pisando ou flutuando nesse exato segundo, e do milagre que foi eles terem saído da barriga de minha mãe e que, pra ela, o amor do mundo todo lhe aparecia em forma de pequenos pés, a única coisa que valia a pena quando a vida parecia cruel.

lembrar de não desistir de caminhar, ainda que às vezes dê muita vontade e ainda que às vezes ceda. está tudo bem em parar, afinal. respirar. contanto que continue em seguida. ainda falta muito o que ver e ouvir, pois tenho o milagre dos olhos, dos ouvidos e das mãos para apreciar, aprender, criar e sentir as coisas que vibram e também gritam ou choram às vezes. chorar reordena a bagunça.

lembrar que já pude chorar via os dedos - que maravilha é poder tocar um instrumento.

lembrar que existe internet, para o bem e para o mal, que me traz o mundo dentro do quarto. que loucura é a cabeça humana e seu poder de conectar-se a outras, viver o mundo em redes.
lembrar que existem rodas e asas, ainda que eu não as possua.

lembrar que existem livros, nos quais posso reviver ou viver pela primeira vez sentimentos e detalhes de vidas que não são minhas, ou que são, tantas vidas que vivo sem perceber ou realizar.

lembrar que, mesmo ao não esperar nada, o acaso me surpreende, muitas vezes em maravilhas, quando não se tem medo, quando não se desiste; muitas vezes em tragédias, afinal não se pode controlar tudo. o improviso é a chave. 

lembrar que mesmo sozinha, com disposição de explorar, posso viver momentos bonitos se me permitir a contemplação.

não esquecer que nessa vida já houve a sorte de um grande amor de verão, mas antes dele tiveram as tantas estradas que percorri sozinha, às vezes com tanto medo, às vezes tão maravilhada e sem entender nada, como chorando ao ter visto a torre pela primeira vez, tendo a plena consciência de que sobre ela repousavam os meus próprios olhos. 
tiveram tantas pessoas lindas, como Sophia, a artista que me ofereceu um sofá em Rennes, uma máscara feita por suas mãos e seu rosto, me levou a tantos passeios e trocas, e que hoje mora na Grécia, e quem sabe a gente a gente ainda se bata por aí...
teve eu em cima das pirâmides do sol e da lua, pensando em como eu era um grão de existência.
teve eu quando era pequena fazendo meditação, sem saber, na praia de atalalia, e passando horas sem pensar em nada, fazendo bolinhas de areia molhada
teve eu escutando o vento numa serra da chapada, e chorando porque ele cantava que nem o mar
teve eu criança com minhas primas fazendo bruxaria de verdade no sítio, porque acreditávamos.
teve meu medo e minha vergonha de Deus, que tudo olhava.
tem meus tantos amigos queridos com seus olhares únicos, com suas sensibilidades, com seus medos, com suas vontades de dizer, de escutar, e de transformar.
tem o passar a mão no pelo de minha gata e não pensar em nada enquanto ela ronrona.

tem a angústia, o caos e a pequeneza.

tem o mistério, vale mais respeitar.

por todas as delícias e as dores,  minhas próprias experiências, vale a pena continuar... 

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