lembrar de por onde já pisei com meus pés e com minha cabeça, quando só podia levar comigo os olhos
lembrar destes pés pisando ou flutuando nesse exato segundo, e do milagre que foi eles terem saído da barriga de minha mãe e que, pra ela, o amor do mundo todo lhe aparecia em forma de pequenos pés, a única coisa que valia a pena quando a vida parecia cruel.
lembrar de não desistir de caminhar, ainda que às vezes dê muita vontade e ainda que às vezes ceda. está tudo bem em parar, afinal. respirar. contanto que continue em seguida. ainda falta muito o que ver e ouvir, pois tenho o milagre dos olhos, dos ouvidos e das mãos para apreciar, aprender, criar e sentir as coisas que vibram e também gritam ou choram às vezes. chorar reordena a bagunça.
lembrar que já pude chorar via os dedos - que maravilha é poder tocar um instrumento.
lembrar que existe internet, para o bem e para o mal, que me traz o mundo dentro do quarto. que loucura é a cabeça humana e seu poder de conectar-se a outras, viver o mundo em redes.
lembrar que existem rodas e asas, ainda que eu não as possua.
lembrar que existem livros, nos quais posso reviver ou viver pela primeira vez sentimentos e detalhes de vidas que não são minhas, ou que são, tantas vidas que vivo sem perceber ou realizar.
lembrar de não desistir de caminhar, ainda que às vezes dê muita vontade e ainda que às vezes ceda. está tudo bem em parar, afinal. respirar. contanto que continue em seguida. ainda falta muito o que ver e ouvir, pois tenho o milagre dos olhos, dos ouvidos e das mãos para apreciar, aprender, criar e sentir as coisas que vibram e também gritam ou choram às vezes. chorar reordena a bagunça.
lembrar que já pude chorar via os dedos - que maravilha é poder tocar um instrumento.
lembrar que existem rodas e asas, ainda que eu não as possua.
lembrar que existem livros, nos quais posso reviver ou viver pela primeira vez sentimentos e detalhes de vidas que não são minhas, ou que são, tantas vidas que vivo sem perceber ou realizar.
lembrar que, mesmo ao não esperar nada, o acaso me surpreende, muitas vezes em maravilhas, quando não se tem medo, quando não se desiste; muitas vezes em tragédias, afinal não se pode controlar tudo. o improviso é a chave.
lembrar que mesmo sozinha, com disposição de explorar, posso viver momentos bonitos se me permitir a contemplação.
não esquecer que nessa vida já houve a sorte de um grande amor de verão, mas antes dele tiveram as tantas estradas que percorri sozinha, às vezes com tanto medo, às vezes tão maravilhada e sem entender nada, como chorando ao ter visto a torre pela primeira vez, tendo a plena consciência de que sobre ela repousavam os meus próprios olhos.
tiveram tantas pessoas lindas, como Sophia, a artista que me ofereceu um sofá em Rennes, uma máscara feita por suas mãos e seu rosto, me levou a tantos passeios e trocas, e que hoje mora na Grécia, e quem sabe a gente a gente ainda se bata por aí...
teve eu em cima das pirâmides do sol e da lua, pensando em como eu era um grão de existência.
teve eu quando era pequena fazendo meditação, sem saber, na praia de atalalia, e passando horas sem pensar em nada, fazendo bolinhas de areia molhada
teve eu escutando o vento numa serra da chapada, e chorando porque ele cantava que nem o mar
teve eu criança com minhas primas fazendo bruxaria de verdade no sítio, porque acreditávamos.
teve meu medo e minha vergonha de Deus, que tudo olhava.
tem meus tantos amigos queridos com seus olhares únicos, com suas sensibilidades, com seus medos, com suas vontades de dizer, de escutar, e de transformar.
tem o passar a mão no pelo de minha gata e não pensar em nada enquanto ela ronrona.
tem a angústia, o caos e a pequeneza.
tem o mistério, vale mais respeitar.
por todas as delícias e as dores, minhas próprias experiências, vale a pena continuar...
teve eu em cima das pirâmides do sol e da lua, pensando em como eu era um grão de existência.
teve eu quando era pequena fazendo meditação, sem saber, na praia de atalalia, e passando horas sem pensar em nada, fazendo bolinhas de areia molhada
teve eu escutando o vento numa serra da chapada, e chorando porque ele cantava que nem o mar
teve eu criança com minhas primas fazendo bruxaria de verdade no sítio, porque acreditávamos.
teve meu medo e minha vergonha de Deus, que tudo olhava.
tem meus tantos amigos queridos com seus olhares únicos, com suas sensibilidades, com seus medos, com suas vontades de dizer, de escutar, e de transformar.
tem o passar a mão no pelo de minha gata e não pensar em nada enquanto ela ronrona.
tem a angústia, o caos e a pequeneza.
tem o mistério, vale mais respeitar.
por todas as delícias e as dores, minhas próprias experiências, vale a pena continuar...
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