quando esse meu corpo tinha cerca de um ano vivo, bom de boca que é até hoje, comeu umas folhas de comigo-ninguém-pode. minha mãe chorou e, também para a tristeza da planta, desde então eu venho podendo. mesmo quando tudo se mostra na iminência do desabamento, há sempre, por alguma razão instintiva, intuitiva ou calculada, um ponto que sustenta a ponte. o ponto sobre o qual, ou dentro de onde, me apoio quando tenho medo, quando não consigo entender porque tornamos a existência tão complexa, ou não consigo enxergar o que de bom há por trás ou pelo avenir de tantas camadas de ações e reações contínuas.
parece que as lentes sobre meus olhos mudam a cada instante, é preciso ter certos apegos se não quiser perder todas as rédeas.
desde então venho, portanto, podendo, podando, sobrevivendo. e mais, tentando viver. tentando fazer tudo caber nessa vida. para além do ponto, para além da ponte, na ousadia e no sonho. ainda que às vezes me falte e me preencha de qualquer forma impensada os orifícios, ou escape por um segundo, ou mil anos dentro da cabeça, de volta ao plano do nada, do vazio, do vácuo. se não, pelo avesso, às vezes transbordando, vomitando na cabeça ou no coração vizinho, tentando me deixar nessa terra, me sobrar, me transformar e multiplicar em planta, pedra, sangue, lágrima.
meu maior medo sempre foi esquecer. talvez por isso eu escreva, mesmo sabendo que vez ou outra é preciso não se preocupar com nada além de respirar. mesmo sabendo, tenho mesmo medo de esquecer, um medo irracional de não saber contar nem minha própria história, de tantos instantes em vão. tenho vontade de uma vida bem vivida, no sentido de Murakami, este que me ensinou que pra ser feliz é preciso aceitar que não se pode controlar tudo, mas que é preciso ter disciplina para controlar algumas coisas como colocar os tênis de corrida e ver o mundo às 5 da manhã e só pensar no ritmo dos passos e dos sons.
e como agora volto a ler, ontem Camus me ensinou também que tudo é questão de hábito: nos acostumamos até a maior das desgraças.
mesmo sabendo disso, a menina agora "chora pois não tem mais seu gato", como no quadrinho da menina que chora.
deve ser normal, a falta que faz do pedaço que costurei em mim, que me foi arrancado e me deixou carne viva. é preciso esperar cicatrizar.
mesmo sabendo que o tempo tudo cura, eu não tenho tanta paciência, e escrevo como forma de tentar catalisar esse processo, diminuir a confusão e a ebulição da coisa. quando sinto muito não raciocino tanto. e nessas horas não tenho as ganas de falar, pois minhas frases não fazem nexo, mas tenho de ser escutada.
a palavra falada sempre me causou certo espanto, pela sua força. com cuidado, no entanto, se faz necessária: o pensamento que puxa a força, a força que puxa a ação, e vice-versa.
esses dias ouvi, inclusive, que a preguiça seria a maior dádiva do homem, por justamente diminuir a potência de seus impulsos - imagine se o exército de Hitler, ou ele mesmo, dissesse não, agora não, que preguiça, quando ele decidiu a invasão da Polônia? mas não seriam os impulsos -de tantos os tipos- a essência da humanidade? e eu do que vou saber...
bref.
se tento explicar o que aconteceu, me vem uma neblina. não posso decidir se o que vivemos foi a supressão de uma carência ou se foi genuinamente a famosa magia da entrega, da descoberta. talvez os dois. de não se sentir só no mundo, de aprender, de compartilhar, de não cobrar que alguém seja algo que não é. de simplesmente respirar, existir e aproveitar. de fazer nada juntos, de fazer tudo juntos.
talvez eu ainda não entenda que sua forma de cuidar não é a mesma da minha. talvez eu só queira ser escutada de volta da mesma forma que escuto. de mostrar também e não só de olhar. tantas vezes você me olhou, é claro, mas outras tantas você não pôde fingir interesse, até porque você não sabe fingir, como eu sei. pelo menos isso, pode ser que este mal seja pro bem. você é o que você é, sem medo de se mostrar por inteiro, enquanto eu tantas vezes me moldo. e não que isso seja não ser eu, mas ser eu é problemático também.
relacionamentos são extremamente complicados, mesmo os da gente sozinhos com as vozes de nossas cabeças. no fim das contas parece que é um eterno trabalho de melhorar e tentar mudar alguma coisa, por mais que nos amemos do jeito que somos.
la seule chose à faire pour l'instant c'est parler mas não sei bem o que te pedir agora.
nossa história é muito ambígua e parece que meu cérebro ao formar suas memórias se apega à parte boa. se vamos repassar...
a forma como nos conhecemos foi muito bonita, uma peça pregada aleatoriamente. la terrasse de ton école. bêbados e chapados, o rolê eterno, eu indo parar em sua casa sem querer realmente, afinal nada havia sido planejado, mas só fui. e foi bem ruim na real, mas no outro dia foi bem bom.
dois meses depois eu ainda dizia que este encontro era só pelo sexo. talvez o sexo diga muito também. talvez o sexo diga tudo. mesmo no começo eu tendo aceitado tanta merda - não sei porque deixei passar coisas caras pra mim, mas agora me perdoo pois é preciso não carregar culpas que não servem para nada.
mas não era só o sexo, afinal acabou sendo também pela companhia, pela curiosidade de conhecer a vida e o mundo de cada um. e eu me apaixonei por seu mundo, tão estranho ao meu.
também teve seu amor genuíno pela música, assim como eu, algo que provavelmente nos conectou mais rapidamente que o resto.
de repente eu ia te dizendo sim e você me dizendo sim de volta, ou o contrário.
e de repente meu pé torcido, o acaso, parece, que faltava pra você cuidar de mim. e o toque todo dia melhorando, a comunicação, e a vida cada vez mais leve. flutuava. era gostoso aprender, mesmo discordando. você tão literal, eu tão aberta aos misticismos e tudo o que você não levava a sério. e ainda assim você escutava, às vezes reconhecendo que t'as toujours raison, que eu não dizia nada só por dizer, mesmo quando eu dizia.
e de repente o seu sorriso mais sincero no dia seguinte àquela noite onde nos demos conta do que era ter feito amor pela primeira vez em nossas vidas, da noite em que você tão bebinho me disse que I love you kkk em inglês porque não tinha coragem ainda em francês, pois nunca havia dito a ninguém, e eu kkk eita, me too.
então vamos comigo, né.
e de repente a viagem, o grande papoco, nós contra o mundo. tudo parecia calculado, mesmo quando perdemos o transporte e pedimos carona na noite, sem esperança, e ela apareceu 10 minutos depois. quando achávamos no chão coisas que pedíamos ao universo kkk. e toda hora uma pessoa linda no caminho a nos mostrar alguma coisa nova. era dançar e amar entre o desconhecido. meu amor, você me dá sorte, etc e tudo mais. a gente falando sem parar, e se entendendo até no silêncio e no sono.
e de repente a ficha caindo de que tudo findava. então viens vivre chez moi, e o grude infinito para tentar extrair disso até a ultima gota. você me inserindo em todos os âmbitos da sua vida, e eu te mostrando que era possível tomar banho junto, beber da mesma xícara, usar a mesma roupa, tocar a mesma música, ter o mesmo medo, e compartilhar a intimidade e a rotina até não poder mais, até querer mais. sonos, sonhos, séries. e a saudade já depois de duas horas longes, o que não sabíamos que era possível. e você cozinhando coisas muito gostosas e frescas pra mim, eu catando cereja de sua árvore com sua mãe, que me dava uma blusa dela, preocupada de eu me sujar. você botando band-aid no meu machucado sem eu pedir e finalizando com um beijo no meu pé, a coisa mais bonita que eu já vi na vida. a história que eu construí com essas memórias.
the time of our lives, eu até disse, porque era bom ser feliz mas era melhor ser feliz sabendo, mesmo com o medo do depois do fim. summer love. c'est pas beau ça?
e de repente a despedida, e a dor inacreditável até pra nós que já tínhamos passado por tantas. e de repente o cancelamento. que loucura, mais uma semana, era pra ser, você disse, você que não acredita em destino. era pra ser a festa da música, o banho de rio, o patinete, a exploração subterrânea, as tantas vistas bonitas mesmo de olho fechado.
e de repente o último sexo olhando nos olhos e chorando no final kkk que brega. o último cochilo em forma de cuillère, e a separação dos mundos estranhos que tinham virado um. você comigo até o ultimo segundo possível. je t'aime, je t'aime plus. nunca mais eu vou dormir.
e de repente eu te perguntando: será que a gente vai se ver de novo? claro que sim, você disse, vai ser o dia mais bonito da minha vida.
agora, tão perto de tudo que não é você, escrevo para acalmar a folia de tantas memórias que se confudem, se transformam. eu me pergunto até que ponto se sustentarão com o tempo, se é um sonho que eu precise deixar para outra vida futura, ou para uma vida que já passou. se faz bem pro corpo sentir tanta falta, como é que faz pra preencher.
agora tenho alguns apegos, mas não tenho boas lentes. fazem quase 90 dias e em cada um deles senti a carne viva e latejante.
comigo estou podendo, mas não tanto.
quinta-feira, 12 de setembro de 2019
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